quinta-feira, 12 de março de 2015

Porque deixei de ser evangélico


Não sei porque motivo você entrou em meu blog para ler este texto, talvez seja por curiosidade, talvez seja por estar enfrentando ou ter enfrentando angústias existenciais por conta deste meio social, ou talvez seja somente porque você é um filiado à qualquer instituição religiosa evangélica ou católica e quer tirar as suas conclusões para reforçar preconceitos disfarçados de “verdades bíblicas”, ou porqualquer outro motivo.

Conheci a igreja evangélica aos 10 anos de idade, e passei a frequentá-la por conta de bons exemplos de vida que conheci entre algumas pessoas que ali frequentavam, e dou graças a Deus pela vida destas pessoas. Passei oito preciosos anos aprendendo em uma igreja evangélica que considerava bastante equilibrada para os padrões evangélicos da época (meados dos anos 2000), onde tive a oportunidade de ter uma adolescência saudável, construindo sentidos para viver: Ali aprendi que deveria amar o próximo, aprendi que deveria ser temente a Deus, aprendi que deveria ser bom. Todavia, na medida em que ia crescendo neste meio, institucionalizava ainda mais a minha fé e o meu comportamento, e passei gradativamente a me aproximar da liderança da igreja, por possuir àquela época um desenvolvimento intelectual e “espiritual” que me respaldava diante da igreja e me colocava cada vez mais em evidência. Aos 10 anos, frequentava as aulas para crianças, aos 13 me batizei, aos 15 dava aulas para crianças e adolescentes, aos 17 anos dava aulas para formação de líderes na igreja (muitas vezes mais velhos que eu), aos 18 anos liderava um projeto missionário da igreja e já pregava na sede, encontros, e em outras congregações.

Já vi muita coisa genuinamente cristã ocorrer no meio evangélico, que foi o que me motivava acreditar na legitimidade de tal movimento, mesmo começando a ter cada vez mais questões que não era respondidas por líderes religiosos que deveriam me orientar no caminho, mas que em um surpreendente movimento, começaram a me pressionar como se eu fosse um adulto que, a despeito de meu desenvolvimento precoce, estava pronto para entender todas as atitudes totalitárias e às vezes irracionais que tomavam. E como eu tinha uma fé genuína, coisa que as decepções que tive com a “igreja” não conseguiram destruir: Vi e vivenciei coisas que não convém dizer, pois são do campo da fé e não do marketing, coisa que aprendi a diferenciar depois de um tempo de fora da igreja.

Aos 18 anos, após uma série de acontecimentos que envolveram decepções com a instituição religiosa, com a postura dos líderes, com a de alguns “irmãos” (que na verdade eram inimigos de alma), e com profundas convicções de que a igreja mataria toda a vida “espiritual” que havia dentro de mim, decidi sair da mesma, o que para minha surpresa, foi a decisão mais acertada da minha juventude. E passo a, por isto, explicar o porque, deixei de ser evangélico:

Deixei de ser evangélico porque cansei de amor seletivo dos irmãos, fruto da hipocrisia religiosa de quem não sabe lidar com seus conteúdos emocionais doentios, ou que é incapaz de amar incondicionalmente como manda a fé cristã. O amor cristão é genuinamente bom, e não é condicional à nenhum estado de ser. Sabem do que eu estou falando os homossexuais ou transexuais que sempre escutam “não temos preconceito” mas que ao entrarem em um templo tem que lidar com dezenas de olhares tortos, como se fossem animais de circo. Também como quando vi que o amor dos irmãos por mim era condicional, na medida em que, quando me ausentei da igreja por anos, somente um amado irmão insistiu em manter laços fraternos comigo, o que me fez entender que, o amor eclesiástico só corre se você está nas mesmas quatro paredes que o grupo religioso. Assim como cansei de ver histórias de pastores mandando cestas comemorativas com flores para médicos ou políticos da igreja, parabenizando pelo nascimento de seus filhos, ao passo que não via tal atitude acontecer com o irmãozinho mais pobre.

Deixei de ser evangélico porque cansei de gente com atitude autoritária se basear em uma “pseudoautoridade” dada por “deus” (sic) para embasar suas loucuras ou desmandos, assim como gente de duas caras que na frente do pastor líder da igreja era de um jeito, mas nas costas era o seu total oposto. Vi gente que era capaz de distorcer uma história de forma gigantesca só para “sair por cima” e que hoje, é para minha incredulidade, igualmente pastor. Estas pessoas infelizmente ainda não entenderam a diferença entre poder e autoridade, sendo que a segundo é dada por Deus sendo respaldada pela sabedoria confirmada pela comunidade e o poder é somente algo dado por uma hierarquia.

Deixei de ser evangélico porque cansei de fofocas de um povo que se reúne para ser um clube social e não para ser um centro de amor e caridade, assim como me cansei de frequentar um lugar que a pessoa tinha mais amigos na mesma medida em que se vestia com roupas de grife.

Deixei de ser evangélico porque estava cansado de ver gente ignorante sendo aclamado líder por pessoas que precisavam de instrução e não de placebos da fé ou opiáceos intelectuais, pois dia após dia via gente ensinando besteira, falando coisas improcedentes ou dando ensinamentos tão rasos que patinavam em tautologias descomunais. Tais coisas faziam com que os irmãos tivessem cada vez menos oportunidade de desenvolverem uma fé que não fosse um aborto da razão, ou um suicídio intelectual.

Deixei de ser evangélico porque cansei de fazer perguntas sinceras e receber como respostas chavões gospeis que não respondiam nada, mas aumentavam em muito a certeza de uma falsa sabedoria de quem os proferia. Isso era fruto da falta de estudo teológico de pastores preguiçosos que batiam no peito para arrogar-se do fato de que não tinham estudo mais haviam crescido na vida, e ainda tinham a torpe capacidade de dizer que “a letra mata, mas o espírito vivifica” (II CO 3:16) para validar a sua ignorância, negligenciando que tal texto se tratava de uma alusão à superação do modus operandi do Velho Testamento pela Era da Graça inaugurada por Cristo.

Deixei de ir para a igreja evangélica porque aprendi que o correto era SER IGREJA, e que o que eu fazia era frequentar uma instituição religiosa, sendo que a fé cristã não nasceu institucionalizada, muito menos para possuir uma sede fixa. Ao olharmos para os evangelhos, veremos Jesus utilizando um método social de ensino: Ele caminhava entre os pobres, prostitutas, mendigos, “pecadores” e não se fixou em lugar nenhum. Ele ensinou que “igreja” é um conceito relacional (Mt 18:20) e que Deus não habita em templos (At 17:24), e muito menos estabeleceu uma liturgia como vemos nas igrejas onde se cantam 5 músicas, tira-se a oferta, prega-se por uma hora, ora-se por 5 minutos e despede-se com os avisos, mas estabelceu a ordem (II Co 14:26-40) como fundamento de um culto racional (Rm 12:1-2).

Deixei a igreja evangélica porque aprendi que ela era a reprodução de um modelo pagão que possui fundamentos na Grécia (At 17:16-34), que foi renunciado na Cruz de Cristo. Na Grécia antiga, onde o politeísmo imperava, o “homem sábio” (mais tarde identificado com o sacerdote cristão) era colocado no lugar alto e falava para a plateia, sentada em um anfiteatro que em pouca coisa difere dos templos atuais. Ao olhar para os modelos primários de reunião dos cristãos (At 2:42-47), vemos que estes eram totalmente diferentes do que os atuais, que são mais parecidos aos Greco-romanos.

Deixei de ser evangélico porque cansei de ver gente torcendo a Bíblia de todas as formas para satisfazer seus mais diferentes intentos, mesmo ouvindo por parte de pastores a máxima de que “texto sem contexto é pretexto para heresia” vivia recebendo destes, centenas de interpretações bíblicas parciais ou descontextualizadas. O que tais líderes não entendiam é que, a Bíblia como um todo, precisava ser contextualizada, analisada levando-se em conta o grande abismo cultural, literal, histórico, psicológico, político e ideológico que nos separa dos seus escritores há 2 mil anos. Assim como também encontrava neste a contradição de quem queria reduzir toda a grandeza de um Deus infinito às cerca de mil páginas um livro finito, sendo que o ápice de sua revelação é própria natureza que nos rodeia (Rm 1:19-20) e que o papel é somente um referencial de uma das inúmeras revelações que Deus entregou para a humanidade.

Deixei de ser evangélico porque cansei de ver a contradição de pessoas que questionavam a idolatria da igreja católica, mas colocavam pastores, líderes ou mesmo o dinheiro como ídolos de seus corações, tornando-se cada vez mais robotizados e menos humanos.

Deixei de ser evangélico porque cansei de ver gente utilizando o Antigo Testamento para rejudaizar a igreja, ou para selecionar as leis que os interessavam para oprimir os leigos na fé e para desfazer o sacrifício na cruz através da imposição de novos sacrifícios dos irmãos, pois entendi que a lei foi abolida (Gl 3:24-25) por Cristo que a cumpriu (Mt 5:17-18), para que o mesmo tivesse autoridade entre os homens para mostrar que a lei mata, mas a graça como expressão do Espírito de Deus, é que salva os homens mediante a fé (Cl 2:13-14;  Ef 2:8-9), assim como entendi que o dízimo, tão amado pelos pastores, foi abolido porque se tratava da época da lei.

Deixei de ser evangélico porque entendi que o modelo de igreja era empresarial e não orgânico como aponta a história do cristianismo primitivo e a bíblia, pois Deus estabeleceu a igreja como um corpo relacional onde os ministérios não estavam submetidos uns aos outros por ordem hierárquica, mas eram respeitados por sua funcionalidade para o aperfeiçoamento da vida cristã (Ef 4:7-12), e que a partir de Cristo, todos os crentes em Deus se tornavam sacerdotes (I Pe 2:5,9; Ap 1:5-6; Ap 5:9-10), e não somente o pastor, ou o apóstolos, e estes não eram “superiores” em nada aos demais, possuindo somente funções diferentes.

Saí da igreja evangélica porque cansei de ver pessoas pregando uma coisa e vivendo outra, como expressão mais pura da mentira e da hipocrisia humana. Especificamente por ter aprendido por líderes religiosos que autojustificação era pecado (Rm 8:33), mas que diante da primeira acusaçãozinha os mesmos corriam para frente da igreja para fazer um showzinho de justificação do ego.

Poderia apontar inúmeros outros motivos, mas os que listei já me fizeram entender de uma vez por todas que evangelicalismo e cristianismo são coisas totalmente diferentes e que, assim como protestantes tiveram que se desvencilhar da igreja católica no século XVI para reformar a fé cristã que havia sido corrompida àquela época por inúmeros fatores, hoje também temos que encontrar meios para desinstitucionalizarmos a fé cristã genuína destes sistemas, sejam eles católicos, evangélicos ou o que sejam, pois estes estão cada vez mais religiosos e menos piedosos, lembrando que a religião, fora do que está descrito em Tg 1:26-27, nada mais é do que um sistema para controlar os homens e extrair deles poder político, escravizando-os e levando-os para longe de onde Cristo os levou: “Para a liberdade, foi que Cristo nos libertou” Gl 5:1.

Maranata, Jesus!

4 comentários:

  1. incrível, gostaria de ter contato com vc, Deus o abençoe

    ResponderExcluir
  2. A Paz do Senhor amado! Sabias palavras! Reflete exatamente o imbróglio que se tornou a igreja evangélica, em especial as tradicionais, como Assembleia de Deus, Batista e Presbiteriana.
    Deus continue abençoando a sua vida irmão!

    ResponderExcluir
  3. Também estou vivenciando esse mesmo conflito...18 anos de conversão, presbítero.No entanto, cheio de dúvidas e questionamentos. Deus é muito mais do que isso que vivemos em nossas doutrinas.

    ResponderExcluir
  4. Amei as palavras tbm estou vivendo o mesmo problema

    ResponderExcluir