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sexta-feira, 3 de abril de 2015

A páscoa, como a vivemos hoje, é uma festa cristã?


Não, não e NÃO! Para começo de conversa a páscoa não é uma festa, originalmente cristã: Ela é uma festa judaica, que foi criada como forma de gratidão à Deus pelo êxodo do Egito, no episódio em que os mesmos aspergiam sangue nas portas, reuniam a família e comiam um cordeiro como um ritual familiar. Esta festa foi conhecida como Pessach e foi posterioremente resignificada com os cristãos, ao afirmarem a morte e ressurreição de Jesus Cristo. De toda forma, não há registro de que os cristãos primitivos (que eram judeus) houvessem modificado o ritual original, a não ser pela inserção da figura do Cristo como centro de adoração.

Mas como foi que apareceu o tal do coelho de páscoa, os ovos, o chocolate? Em primeiro lugar, há que se perceber que, para estabelecer-se como religião oficial do Império Romano (que agregava uma série de etnias e tribos), o cristianismo teve que fazer uma série de concessões ritualísticas e de cunho político às outras religiões, de modo a sincretizá-las em sua liturgia: O natal por exemplo, passou a ser celebrado no dia 25 de Dezembro, para apaziguar os adoradores de Mitra, deus-sol que foi historicamente adorado entre persas e romanos, cujo nascimento era atribuído à este dia. Com a páscoa foi semelhante – Existiam, especificamente duas tradições à época do Império Romano que influenciaram o modelo atual de páscoa que para nós foi importando nos dias atuais; os egípcios e os povos anglo-saxões.

Existiam rituais de renascimento e morte, que eram simbolizados no Egito Antigo na figura do deus Osíris, o deus da fertilidade, onde a liturgia era feita através de cerimônias com ovos pintados e adornados com pedras preciosas. Para quem não sabe, a cultura egípcia teve uma forte influencia no Império Romano, desde que este foi incorporado à Grécia Helenística.

Neste sentido, outra cultura que teve forte influência na religiosidade romana foi a dos povos anglo-saxões, que possuíam à época o culto a sua deusa da fertilidade que era conhecida como Ostara, Eostre ou Easter (este último nome fazendo alusão direta ao atual nome inglês dado à festa da Páscoa). As festividades desta deusa também consistiam na pintura e adorno dos ovos, que posteriormente eram escondidos para serem encontrados por adultos e crianças. Outro ponto interessante era que, o animal que representava esta deusa, era o coelho, pois o mesmo se reproduzia muito rápido e em grande quantidade, o que simbolizaria a fertilidade.

E o chocolate? Foi se incorporando aos poucos à tradição católica graças aos luxos conquistados pela burguesia durante a Idade Média, diante das novas tecnologias alcançadas  à época.

Alguma dúvida de porque a páscoa ocidental é chamada de Easter e não de Pessach? Simplesmente porque a Páscoa como a conhecemos hoje é uma tradição importante de duas das maiores instituições civilizatórias da atualidade: O Romanismo Católico e a Cultura Inglesa/Estadunidense.


Logo, a páscoa, como a conhecemos hoje, não é uma festa originalmente cristã, mas uma festa expropriada dos judeus, que passou pelo cristianismo judaico, para um romanismo egípcio e anglo-saxão, ao ponto de ser exportado para as Américas por colonos europeus, de forte tradição italiana e inglesa.

Imagem: Extraída do Google Imagens

Texto por: Murillo Rodrigues

domingo, 29 de março de 2015

Como ocorre(u) o processo de evangelicalização do Brasil


Estatisticamente os evangélicos deixaram de ser um grupo minoritário no Brasil há anos, e isso só está surpreendendo cientistas sociais depois de o censo do IBGE de 2014 ter divulgado dados em que aponta que 25% da população brasileira já se define como tal: O que parece ser estatisticamente baixo se torna amplificado se pensarmos a extensão territorial e populacional do Brasil.

Mas como isso ocorreu em um país historicamente católico em tão pouco tempo? Obviamente, não foi do nada! E pasmem, nem foi por tão pouco tempo assim: A história da igreja evangélica no Brasil começa muito antes do que se imagina, com o Protestantismo de Imigração, sendo que a primeira igreja protestante se estabeleceu no Brasil no ano de 1557, com os franceses (Igreja Reformada Francesa), seguida da Igreja Reformada Holandesa, que foi estabelecida em 1630 (quase um século depois). O que ocorre é que a partir daí foram dando-se saltos cronológicos para o estabelecimento de outras denominações, como a Igreja Anglicana em 1816, a Luterana em 1824, a Congregacional em 1858, a Presbiteriana em 1862, a Metodista em 1867, a Batista em 1871, dentre outras, sendo todas estas as igrejas da Protestante Histórica.

Essas primeiras igrejas se estabeleceram no Brasil inicialmente como produto de exportação de imigrantes franceses, holandeses e ingleses, que obtiveram do Império a permissão para estabelecer o seu culto no país, desde que as sedes das igrejas não possuíssem nenhum tipo de aparência que as identificassem como templos religiosos (daí uma parte a diferença arquitetônica entre igrejas católicas e evangélicas no Brasil) e que as mesmas não fossem proselitistas (ou seja, que não evangelizassem a população). Todavia, com o passar do tempo e com o aumento da população no Brasil, seguido de pressões populares, a liberdade de culto e evangelização foi sendo afrouxada. O estabelecimento destas igrejas no Brasil passou a ser conhecido como Protestantismo de Primeira Onda.

Todavia a liberdade de culto que as igrejas hoje possuem só passou a ser permitida com o advento da República, com o Estado Laico! Isso mesmo, parece ironia se olharmos hoje o fato de que, a ideia de um Estado Laico (que é combatida por alguns fundamentalistas religiosos de maneira absurda) foi a que permitiu parte da expansão da igreja evangélica no Brasil.

Em 1910 fundou-se a primeira denominação evangélica pentecostal no país, com a Congregação Cristã do Brasil, seguida no ano seguinte por aquela que se tornaria como a maior denominação evangélica desta vertente: A Igreja Assembleia de Deus – esta teve um papel importantíssimo na propagação da mensagem evangélica no país, pois possuía um cunho extremamente missionário (foi fundada por dois missionários suecos em Belém - PA) com um discurso extremamente acessível à população com menor instrução e nível econômico. Essas igrejas inauguram a Segunda Onda do Protestantismo Brasileiro, das igrejas pentecostais que possuíam forte apelo nas camadas sociais mais baixas da população, e que incorporavam elementos religiosos e linguísticos cada vez mais populares. Nelas existe uma valoração muito extensa de elementos ritualísticos “mágicos” como exorcismos, curas divinas, línguas estranhas ou outras manifestações do tipo, sendo que os mesmos foram se incorporando com muito sucesso no imaginário e no cotidiano de uma população sofredora e carente de assistência, em qualquer nível, sendo que esta passou a ser fornecida mais pela igreja, do que por um Estado incipiente.

Foi muito rápida a proliferação de igrejas evangélicas pentecostais no país, alcançando lugares onde o próprio Estado não alcançava: As favelas, os sertões, as florestas, os campos, as periferias. E as denominações multiplicavam-se quanto mais se manifestavam as incertezas e dificuldades dos líderes religiosos se acertarem teologicamente, pois não era raro o fato de que, se um líder discordasse de outro em algum aspecto teológico ou administrativo, este logo fundava uma outra denominação. E assim ocorreu com igrejas como “O Brasil para Cristo”, em 1955; “Igreja Cristã de Nova Vida” em 1960; “Deus é Amor”, em 1962.

Todavia este panorama desembocou no que se conhece como a Terceira Onda do Protestantismo Brasileiro, inaugurado pela Igreja Universal do Reino de Deus, em 1977, por dois nomes famosos: Edir Macedo (atual líder supremo da denominação) e R.R. Soares, que saiu posteriormente para fundar a Igreja Internacional da Graça de Deus, em 1980. E aqui faço um parágrafo somente para a Igreja Universal

A Igreja Universal do Reino de Deus é, para mim, um dos modelos mais estranhos e bizarros do protestantismo brasileiro, pelo simples fato de seu modelo altamente sincrético e sucursal. Começou no fim da década de 1970 com um apelo sincrético muito forte com o catolicismo, na mesma medida em que combatia-o (a Igreja Universal incorporou elementos como a “água ungida”, cujos pastores pediam para colocar no televisor, como um modelo “evangélico” de água benta), depois passou a sincretizar elementos das religiões afrobrasileiras (quem não conhece as famosas “Sessões do Descarrego” das terças-feiras da IURD, à semelhança das sessões homônimas nos centros de umbanda?!), e recentemente está incorporando elementos do judaísmo (Templo de Salomão, “Arca da Aliança”, etc) em sua parafernalha religiosa. Esta igreja fez “escola” ao dar origem à Igreja Internacional da Graça de Deus, em 1980, e à Igreja Mundial do Poder de Deus, em 1998 (note que não faltam superlativos para valorizar o nome das “igrejas”). Enfim, paro por aqui, pois esta igreja merece um texto só para ela.

Mas o fato é que a Igreja Universal começou mais agressivamente à conversão de fiéis no Brasil, e exportou-se para o mundo com muito sucesso, sendo uma das maiores igrejas “evangélicas” do mundo. Começou também com um discurso muito voltado para as camadas pobres da população, tendo um giro discursivo muito grande ainda na década de 1990, quando passou a focar-se nas classes média e alta da população. Mas a terceira onda protestante no Brasil não iniciou-se somente com a Universal: Igrejas muito diferentes mas com discursos também próximos à “Batalha Espiritual” e a “Teologia da Prosperidade” logo ganharam notoriedade.

Um grupo específico de igrejas, que originou-se com um movimento importado da Colômbia a partir da década de 1990, o chamado G12 (que depois ganhou outros nomes como M12, ou MDA), foi o responsável por outro salto no objetivo imperialista evangélico brasileiro. A chamada “visão celular” trazida por tal movimento, fez de “cada casa uma igreja, e cada crente um ministro”, ampliando ainda mais o alcance territorial de tais igrejas. A partir daí começou-se toda uma teologia sui generis do movimento evangélico, recheada de novidades como a reintrodução dos “apóstolos” no Brasil, como a nova onda de “batalha espiritual” (esta mais atualizada e modernizada, diferentemente da Universal cujos grandes vilões eram os “Exus” e “Pombas Giras”, esta passa a incorporar outros vilões como o do movimento New Age, e etc). Aqui englobam-se as Igrejas Renascer em Cristo (1986), o Ministério Internacional da Restauração – MIR (1992), a Igreja Sara Nossa Terra (1992), a Igreja Fonte da Vida (1994), Igreja Nacional do Senhor Jesus (1994), dentre outras. O que acontece é que tais igrejas passaram a ter uma capilaridade muito grande, maior poder político, econômico e social, e um discurso mais light voltado para uma classe de jovens, adolescentes e até mesmo de adultos que não se enquadravam no perfil pentecostal ou histórico. Estas igrejas passaram a ser chamadas de Igrejas Neopentecostais e tiveram maior sucesso frente às mídias e a modernidade. Nota-se porém que nem todas estas igrejas são de uma teologia em comum, mas possuem raízes que se enquadram em certos movimentos.

O que acontece é que, mesmo com o atual crescimento de tais denominações, parece que os recentes escândalos e o crescimento da escolarização do brasileiro, tem feito com que ocorra um fenômeno singular: O crescimento dos “desigrejados” de base protestante. Sim! Nem todo ex-evangélico pode se caracterizar na alcunha que as igrejas dão de “desviado”. Muitos jovens e adultos tem experimentado um novo movimento de fé desistitucionalizada e que parece estar assustando os líderes proselitistas de tais congregações.


O fato é que precisamos conhece um pouco da história do movimento evangélico brasileiro par diferenciar entre as suas linhas de pensamento e as suas teologias, para tentar lançar luz sobre o comportamento religioso do Brasileiro, e não colocar “todos no mesmo saco”.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Porque deixei de ser evangélico


Não sei porque motivo você entrou em meu blog para ler este texto, talvez seja por curiosidade, talvez seja por estar enfrentando ou ter enfrentando angústias existenciais por conta deste meio social, ou talvez seja somente porque você é um filiado à qualquer instituição religiosa evangélica ou católica e quer tirar as suas conclusões para reforçar preconceitos disfarçados de “verdades bíblicas”, ou porqualquer outro motivo.

Conheci a igreja evangélica aos 10 anos de idade, e passei a frequentá-la por conta de bons exemplos de vida que conheci entre algumas pessoas que ali frequentavam, e dou graças a Deus pela vida destas pessoas. Passei oito preciosos anos aprendendo em uma igreja evangélica que considerava bastante equilibrada para os padrões evangélicos da época (meados dos anos 2000), onde tive a oportunidade de ter uma adolescência saudável, construindo sentidos para viver: Ali aprendi que deveria amar o próximo, aprendi que deveria ser temente a Deus, aprendi que deveria ser bom. Todavia, na medida em que ia crescendo neste meio, institucionalizava ainda mais a minha fé e o meu comportamento, e passei gradativamente a me aproximar da liderança da igreja, por possuir àquela época um desenvolvimento intelectual e “espiritual” que me respaldava diante da igreja e me colocava cada vez mais em evidência. Aos 10 anos, frequentava as aulas para crianças, aos 13 me batizei, aos 15 dava aulas para crianças e adolescentes, aos 17 anos dava aulas para formação de líderes na igreja (muitas vezes mais velhos que eu), aos 18 anos liderava um projeto missionário da igreja e já pregava na sede, encontros, e em outras congregações.

Já vi muita coisa genuinamente cristã ocorrer no meio evangélico, que foi o que me motivava acreditar na legitimidade de tal movimento, mesmo começando a ter cada vez mais questões que não era respondidas por líderes religiosos que deveriam me orientar no caminho, mas que em um surpreendente movimento, começaram a me pressionar como se eu fosse um adulto que, a despeito de meu desenvolvimento precoce, estava pronto para entender todas as atitudes totalitárias e às vezes irracionais que tomavam. E como eu tinha uma fé genuína, coisa que as decepções que tive com a “igreja” não conseguiram destruir: Vi e vivenciei coisas que não convém dizer, pois são do campo da fé e não do marketing, coisa que aprendi a diferenciar depois de um tempo de fora da igreja.

Aos 18 anos, após uma série de acontecimentos que envolveram decepções com a instituição religiosa, com a postura dos líderes, com a de alguns “irmãos” (que na verdade eram inimigos de alma), e com profundas convicções de que a igreja mataria toda a vida “espiritual” que havia dentro de mim, decidi sair da mesma, o que para minha surpresa, foi a decisão mais acertada da minha juventude. E passo a, por isto, explicar o porque, deixei de ser evangélico:

Deixei de ser evangélico porque cansei de amor seletivo dos irmãos, fruto da hipocrisia religiosa de quem não sabe lidar com seus conteúdos emocionais doentios, ou que é incapaz de amar incondicionalmente como manda a fé cristã. O amor cristão é genuinamente bom, e não é condicional à nenhum estado de ser. Sabem do que eu estou falando os homossexuais ou transexuais que sempre escutam “não temos preconceito” mas que ao entrarem em um templo tem que lidar com dezenas de olhares tortos, como se fossem animais de circo. Também como quando vi que o amor dos irmãos por mim era condicional, na medida em que, quando me ausentei da igreja por anos, somente um amado irmão insistiu em manter laços fraternos comigo, o que me fez entender que, o amor eclesiástico só corre se você está nas mesmas quatro paredes que o grupo religioso. Assim como cansei de ver histórias de pastores mandando cestas comemorativas com flores para médicos ou políticos da igreja, parabenizando pelo nascimento de seus filhos, ao passo que não via tal atitude acontecer com o irmãozinho mais pobre.

Deixei de ser evangélico porque cansei de gente com atitude autoritária se basear em uma “pseudoautoridade” dada por “deus” (sic) para embasar suas loucuras ou desmandos, assim como gente de duas caras que na frente do pastor líder da igreja era de um jeito, mas nas costas era o seu total oposto. Vi gente que era capaz de distorcer uma história de forma gigantesca só para “sair por cima” e que hoje, é para minha incredulidade, igualmente pastor. Estas pessoas infelizmente ainda não entenderam a diferença entre poder e autoridade, sendo que a segundo é dada por Deus sendo respaldada pela sabedoria confirmada pela comunidade e o poder é somente algo dado por uma hierarquia.

Deixei de ser evangélico porque cansei de fofocas de um povo que se reúne para ser um clube social e não para ser um centro de amor e caridade, assim como me cansei de frequentar um lugar que a pessoa tinha mais amigos na mesma medida em que se vestia com roupas de grife.

Deixei de ser evangélico porque estava cansado de ver gente ignorante sendo aclamado líder por pessoas que precisavam de instrução e não de placebos da fé ou opiáceos intelectuais, pois dia após dia via gente ensinando besteira, falando coisas improcedentes ou dando ensinamentos tão rasos que patinavam em tautologias descomunais. Tais coisas faziam com que os irmãos tivessem cada vez menos oportunidade de desenvolverem uma fé que não fosse um aborto da razão, ou um suicídio intelectual.

Deixei de ser evangélico porque cansei de fazer perguntas sinceras e receber como respostas chavões gospeis que não respondiam nada, mas aumentavam em muito a certeza de uma falsa sabedoria de quem os proferia. Isso era fruto da falta de estudo teológico de pastores preguiçosos que batiam no peito para arrogar-se do fato de que não tinham estudo mais haviam crescido na vida, e ainda tinham a torpe capacidade de dizer que “a letra mata, mas o espírito vivifica” (II CO 3:16) para validar a sua ignorância, negligenciando que tal texto se tratava de uma alusão à superação do modus operandi do Velho Testamento pela Era da Graça inaugurada por Cristo.

Deixei de ir para a igreja evangélica porque aprendi que o correto era SER IGREJA, e que o que eu fazia era frequentar uma instituição religiosa, sendo que a fé cristã não nasceu institucionalizada, muito menos para possuir uma sede fixa. Ao olharmos para os evangelhos, veremos Jesus utilizando um método social de ensino: Ele caminhava entre os pobres, prostitutas, mendigos, “pecadores” e não se fixou em lugar nenhum. Ele ensinou que “igreja” é um conceito relacional (Mt 18:20) e que Deus não habita em templos (At 17:24), e muito menos estabeleceu uma liturgia como vemos nas igrejas onde se cantam 5 músicas, tira-se a oferta, prega-se por uma hora, ora-se por 5 minutos e despede-se com os avisos, mas estabelceu a ordem (II Co 14:26-40) como fundamento de um culto racional (Rm 12:1-2).

Deixei a igreja evangélica porque aprendi que ela era a reprodução de um modelo pagão que possui fundamentos na Grécia (At 17:16-34), que foi renunciado na Cruz de Cristo. Na Grécia antiga, onde o politeísmo imperava, o “homem sábio” (mais tarde identificado com o sacerdote cristão) era colocado no lugar alto e falava para a plateia, sentada em um anfiteatro que em pouca coisa difere dos templos atuais. Ao olhar para os modelos primários de reunião dos cristãos (At 2:42-47), vemos que estes eram totalmente diferentes do que os atuais, que são mais parecidos aos Greco-romanos.

Deixei de ser evangélico porque cansei de ver gente torcendo a Bíblia de todas as formas para satisfazer seus mais diferentes intentos, mesmo ouvindo por parte de pastores a máxima de que “texto sem contexto é pretexto para heresia” vivia recebendo destes, centenas de interpretações bíblicas parciais ou descontextualizadas. O que tais líderes não entendiam é que, a Bíblia como um todo, precisava ser contextualizada, analisada levando-se em conta o grande abismo cultural, literal, histórico, psicológico, político e ideológico que nos separa dos seus escritores há 2 mil anos. Assim como também encontrava neste a contradição de quem queria reduzir toda a grandeza de um Deus infinito às cerca de mil páginas um livro finito, sendo que o ápice de sua revelação é própria natureza que nos rodeia (Rm 1:19-20) e que o papel é somente um referencial de uma das inúmeras revelações que Deus entregou para a humanidade.

Deixei de ser evangélico porque cansei de ver a contradição de pessoas que questionavam a idolatria da igreja católica, mas colocavam pastores, líderes ou mesmo o dinheiro como ídolos de seus corações, tornando-se cada vez mais robotizados e menos humanos.

Deixei de ser evangélico porque cansei de ver gente utilizando o Antigo Testamento para rejudaizar a igreja, ou para selecionar as leis que os interessavam para oprimir os leigos na fé e para desfazer o sacrifício na cruz através da imposição de novos sacrifícios dos irmãos, pois entendi que a lei foi abolida (Gl 3:24-25) por Cristo que a cumpriu (Mt 5:17-18), para que o mesmo tivesse autoridade entre os homens para mostrar que a lei mata, mas a graça como expressão do Espírito de Deus, é que salva os homens mediante a fé (Cl 2:13-14;  Ef 2:8-9), assim como entendi que o dízimo, tão amado pelos pastores, foi abolido porque se tratava da época da lei.

Deixei de ser evangélico porque entendi que o modelo de igreja era empresarial e não orgânico como aponta a história do cristianismo primitivo e a bíblia, pois Deus estabeleceu a igreja como um corpo relacional onde os ministérios não estavam submetidos uns aos outros por ordem hierárquica, mas eram respeitados por sua funcionalidade para o aperfeiçoamento da vida cristã (Ef 4:7-12), e que a partir de Cristo, todos os crentes em Deus se tornavam sacerdotes (I Pe 2:5,9; Ap 1:5-6; Ap 5:9-10), e não somente o pastor, ou o apóstolos, e estes não eram “superiores” em nada aos demais, possuindo somente funções diferentes.

Saí da igreja evangélica porque cansei de ver pessoas pregando uma coisa e vivendo outra, como expressão mais pura da mentira e da hipocrisia humana. Especificamente por ter aprendido por líderes religiosos que autojustificação era pecado (Rm 8:33), mas que diante da primeira acusaçãozinha os mesmos corriam para frente da igreja para fazer um showzinho de justificação do ego.

Poderia apontar inúmeros outros motivos, mas os que listei já me fizeram entender de uma vez por todas que evangelicalismo e cristianismo são coisas totalmente diferentes e que, assim como protestantes tiveram que se desvencilhar da igreja católica no século XVI para reformar a fé cristã que havia sido corrompida àquela época por inúmeros fatores, hoje também temos que encontrar meios para desinstitucionalizarmos a fé cristã genuína destes sistemas, sejam eles católicos, evangélicos ou o que sejam, pois estes estão cada vez mais religiosos e menos piedosos, lembrando que a religião, fora do que está descrito em Tg 1:26-27, nada mais é do que um sistema para controlar os homens e extrair deles poder político, escravizando-os e levando-os para longe de onde Cristo os levou: “Para a liberdade, foi que Cristo nos libertou” Gl 5:1.

Maranata, Jesus!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Acampamentos de carnaval e a monasticisação do evangelicalismo brasileiro


Quero deixar bem claro que este não é um texto que pretende ofender nenhum tipo de credo religioso ou denominação, e que justamente está amparado no direito bíblico registrado na Primeira Epístola de Paulo aos Tessalonicenses, Capítulo 5, Verso 21, que diz:


“Julgai tudo, retende o que é bom”

Pois bem, vamos aos fatos. Em primeiro lugar, gostaria de deixar bem claro a minha tese de que Cristianismo e Evangelicalismo são coisas bem diferentes, assim como Catolicismo, Protestantismo, Ortodoxia Oriental, etc. Não vou entrar no mérito moral ou apologético de nenhuma vertente do pensamento religioso brasileiro ou mundial, mas fazer uma análise histórica e crítica do fenômeno religioso. Se você está se perguntando, o que eu quero dizer com o fato de que evangelicalismo e cristianismo são coisas diferentes, eu tentarei resumir ao seguinte resumo: O Cristianismo é uma filosofia inaugurada no século I, inicialmente desenvolvida por Jesus de Nazaré (me refiro ao personagem histórico, sem fazer alusão a qualquer questão de divindade do mesmo), sendo posteriormente trabalhada por seus discípulos mais próximos. Posteriormente foram surgindo correntes baseadas neste pensamento, desenvolvendo teologias e filosofias inicialmente diferentes das iniciais, como o catolicismo a partir do século III com Constantino, ao tornar o “cristianismo” (já pervertido pelo sincretismo com o paganismo grego-romano da época) a religião oficial do Estado Romano. Posteriormente houve o Cisma do Oriente, evento histórico que dividiu a Igreja Católica da Ortodoxa no século XI, e ainda depois, no século XVI surge o Protestantismo a partir de revolta de Lutero.

Se olharmos a filosofia e os usos e costumes das instituições religiosas evangélicas no Brasil atual (objeto de nossa análise), assim como a católica ou a ortodoxa, e compararmos com o livro áureo da fé cristã (a Bíblia) e estudarmos a teologia sob o contexto histórico e cultural da época, teremos a certeza de que, o modo de operação do cristianismo no século I era totalmente diferente das práticas atuais de qualquer vertente. Não que isso seja argumento contra a legitimidade de qualquer uma das vertentes, mas que marca a diferença conceitual entre cristianismo e qualquer arcabouço teórico-doutrinário teológico que temos hoje.

Pois bem, a história da Instituições Religiosas Evangélicas remonta à tradição protestante, sendo que hoje, no Brasil, podemos notar ou delinear três subtipos diferentes de teologias evangélicas: A linha histórica (ou tradicional), a linha pentecostal e a linha neopentecostal. Eu ainda inseriria outro tipo de classificação teológica, que são a das Indefinidas, mas isso é outra história. Pois bem, as três linhas que nomeei neste texto são baseadas em aspectos doutrinários e teológicos diferentes, e as que mais se sobressaem nos dias de hoje são as de matriz pentecostal e neopentecostal, notadamente oriundas de tradições estadunidenses.

O que acontece é que, muitas práticas religiosas ou administrativas foram adentrando as instituições religiosas em um violento processo de colonização, sem nenhum tipo de reflexão ou crítica teológica profunda por boa parte dos líderes: A teologia da prosperidade, a teologia da batalha espiritual, a teologia da igreja celular, a teologia neo-avivalista e etc. Mais isto já se trata de uma história bem recente.

A história do Protestantismo é marcada pela radical negação da teologia católica, sendo que Lutero, em seu movimento de reforma no século XVI destacou 95 teses que separavam o pensamento protestante do romanismo, e posteriormente reforçado pela teoria dos 5 solas (Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus, Sola Scriputra e Soli Deo Glória). Ou seja, o protestantismo foi marcado como um movimento de resistência teológico, filosófico, social e cultural ao catolicismo, que na Idade Média dominava o mundo ocidental, imergindo-o em uma cortina espessa de dominação política e social.

Um dos cientistas mais importantes do século XX, Max Weber (1864-1920) foi especialmente interessado em traçar um paralelo entre a vida católica e a vida protestante, e a implicação histórica que tais modos de vida tiveram no ocidente, especificamente voltado ao desenvolvimento econômico, defendendo a tese de que, por partirem de éticas diferentes, os povos adeptos de cada uma das doutrinas filosófico religiosas desenvolveria diferentes tipos de sociedade. Essa foi a parte da ideia geral do livro “A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (Weber, 2009).

No mesmo livro, Weber (2009) demonstra historicamente que, uma das bases filosóficas da moralidade católica era o pensamento monástico, ou seja, aquele que defende que, para uma pessoa agradar a Deus, precisaria estar separado das coisas do mundo, em uma dedicação total e irrestrita a Deus. Neste sentido, o homem, para o exercício da vontade divina, deveria isolar-se do mundo exterior para o exercício quase eremita do “minstério”. Weber demonstra que esta noção foi radicalmente reformada pela visão protestante, ao defender a ideia de que o ministério ao qual Deus havia vocacionado ao ser humano não era necessariamente monástico e que poderia ser exercido no mundo secular, através das profissões, por exemplo. Isso coaduna com a visão de Paulo de Tarso, pregador cristão do século I:

“Tudo o quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” Colossenses 3:23

Neste sentido, um dos pontos que, mesmo que sem a ciência direta dos protestantes, separou o modo de atuação destes para com os católicos na vida e na noção ministerial foi o abandono da vida monástica e a adoção da noção de trabalho secular como ministério, e é aqui que entramos na crítica - Infelizmente, nos dias de hoje, tenho notado que as instituições evangélicas tem adotado um retorno ao monasticismo, mesmo que de forma velada, ao separar os seus fiéis de práticas que os mesmos consideram como “mundanas” ou “pecaminosas”. E aqui entro com a questão do texto, usando o carnaval como exemplo – as instituições evangélicas tem, durante esta festa, separado principalmente os jovens, para retiros “espirituais” com a ideia de que serão “consagrados à Deus” nestes dias em um movimento de resistência a pecaminosidade do carnaval. O problema é que, isso vai diretamente contra a tradição protestante, contra a psique humana e contra a teologia cristã:


  1. Contra a tradição protestante, porque adota a visão monástica de consagração. Ora, a ideia de consagração como isolamento do mundo é católica e não protestante, no sentido de que esta ideia foi abandonada na reforma. Ou seja, inadvertidamente, há um retorno ao catolicismo e às suas práticas, tão fortemente condenadas por esta doutrina;
  2. Contra a psiquê humana, pois há todo um investimento institucional para recalcar energias pulsionais que poderiam ser trabalhadas ou sublimadas em outras atividades, que não fosse estritamente as atividades monásticas;
  3. Contra a teologia cristã, no sentido de que, Jesus de Nazaré, registrado em João 17:15 defende em sua oração a Deus: “Não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal”. Ou seja, o próprio Cristo demonstrava ser contrário a ideia de santificação através do monasticismo.

Mas o que há por trás deste equívoco? Penso eu que, mesmo de uma maneira bem intencionada, há um equívoco teológico na ideia de “consagração”, ao entendê-la como separação radical do mundo e não como “um coração e uma mente disposta ao serviço cristão”. Essa diferenciação é essencial para a compreensão de que, o cristão deve permanecer inabalável diante de qualquer circunstância no mundo, não precisando fugir delas sob pretexto de santificação. Isso confirma um dos textos mais queridos pelos evangélicos:

“Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido” Salmos 90:7

Ou seja, o que passa é que, para os que querem advogar viver sob uma tradição protestante há que, com um pouco de reflexão crítica, compreender os condicionantes históricos no processo de constituição de sua crença, para assim, viver com mais coerência filosófica e teológica.

Referências

Weber, M. (2009). A ética protestante e o espírito do capitalismo, 4ª Ed. São Paulo: Martins Claret.

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (Brasil), com graduação sanduíche pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (Estados Unidos) e Fundación Botín (Espanha). Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Possui experiência com docência de grupos eclesiásticos. Atualmente é pesquisador pela CAPES/MEC e presidente da Rede Goiana de Psicologia.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Homossexualidade – Interconexão entre o discurso teológico e a psicologia

por Murillo Rodrigues dos Santos
Trabalho para obtenção de nota parcial de N1 na disciplina “Teologia e Ciências da Vida” na PUC Goiás.
Definições sobre o tema
Homossexualidade não é um termo com uma definição fechada, haja visto que não existe consenso em relação as suas causas, dificultando definições operacionais. Todavia, segundo Nunes e Ramos (2008), a definição mais utilizada, ainda que seja um conceito vago é a de que a “homossexualidade é definida como a preferência sexual por indivíduos do mesmo sexo” (p. 2).
Historicamente surge com os termos “Sodomia”, associados aos comportamentos homossexuais da cidade de Sodoma (Gênesis 13), também assumindo a alcunha de “pederastia”, vindo do grego “amante de meninos”.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Predestinação ou Livre Arbítrio - Derrubando uma falsa antagonia pelos métodos compreensivo, socrático e dialético

Em se tratando de Teologia, existe um aparente empecilho quando se discutem duas correntes doutrinárias conhecidas no Protestantismo - Predestinação (Tudo está determinado antes mesmo de termos nascido), e Livre Arbítrio (Somos livres para escolher). Tais doutrinas, obviamente contraditórias são resultado de um processo sobre o qual nasce toda APARENTE CONTRADIÇÃO BÍBLICA: Uma análise não-global das Escrituras.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Citação: Perdendo Filhos - Nancy Pearcey

Nancy Pearcey
""Perdemos a cultura" e continuamos perdendo nossos filhos. A história trágica e repetitiva é que os jovens crentes, criados em lares cristãos, vão para a faculdade e abandonam a fé. Porque este padrão é tão comum? Em grande parte, porque eles não foram ensinados a desenvolver uma cosmovisão bíblica. Em vez disso, o cristianismo é restrito a uma arca especializada de crença religiosa e devoção pessoal.

Recentemente li um exemplo notável. Em uma certa escola secundária cristã americana, um professor de teologia colocou-se à frente da sala de aula e, de uma lado do quadro-negro, desenhou um coração, e do outro, um cérebro. Os dois desenhos ocupavam partes iguais do quadro. Virando-se para a classe disse: O coração é o que usamos para a religião, ao passo que fazemos uso do cérebro para a ciência.

Uma história apócrifa? Uma caricatura de anti-intelectualismo cristão? Não, a história foi narrada por uma jovem que naquele dia estava na sala.

Pior, entre uns duzentos alunos, e ela foi a única que contestou. Pelo visto, os demais não acharam nada incomum restringir a religião ao domínio do "coração".

Na função de pais, pastores, professores e líderes cristãos de grupos de mocidade, vemos constantemente os jovens humilhados pela contracorrente de tendências culturais poderosas. Se tudo o que lhes dermos for uma religião do "coração", não serão bastantes fortes para se oporem à isca de ideias atraentes e perigosas. Os jovens crentes também precisam de uma religião do "cérebro" - educação em cosmovisão e apologética - para equipá-los na análise crítica de cosmovisões concorrentes que eles encontrarão no mundo a fora. Se estiverem prevenidos e armados, os jovens pelo menos terão a chance de lutar quando forem a minoria entre os companheiros de classe ou colegas de trabalho. Educar os jovens a desenvolver uma mente cristã já não é opção; é parte indispensável do equipamento de sobrevivência."


Nancy Pearcey. Verdade Absoluta. Pp. 14-15.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A ciência é onipotente? Craig Vs. Atkins - Embate de Ph.D's


Simplesmente o vídeo de uma genialidade do Filósofo Willian Lane Craig, Ph.D. em debate com o exponente do ateísmo Peter Atkins, Ph.D em química e um dos maiores defensores do ateísmo do mundo.
Sem dúvida Craig sagra-se ao lado de Alvin Plantinga como um dos maiores filósofos cristãos da atualidade.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Religiões no Brasil - Atlas Histórico Istoé

RElLIGIÕES / IGREJAS
O maior país católico do mundo é também, durante séculos, exclusiva e compulsóriamente fiel à Igreja de Roma. Só com o tratado de 1810, e contrariando o núncio apostólico, a coroa abre exceção para o culto anglicano, professado por comerciantes e diplomatas ingleses, ainda assim com restrições (os lugares de culto não podem ter aparência de templo, nem sinos). A constituição de 1824 estende a permissão a outros cultos cristãos, devido a chegada das 1as levas de imigrantes de confissão luterana. Porém o catolicismo permanece a religião do Estado e dispõe de regalia que resguardam um virtual monopólio (até 1881 apenas católicos tem, por exemplo, direito de voto). Seu concorrente espiritual na época é a maçonaria, com penetração restrita às elites, mas protagonista da Questão Religiosa de 1872-1875, 1º abalo no domínio católico. A república de 1889, sob influência positivista separa Igreja e Estado, estabelece o ensino laico, o casamento e o registro civis obrigatórios; mas o catolicismo logo recupera foros de igreja ociosa, reforçados nos anos 30 com o atendimento das reivindicações católicas e ainda hoje não de todo extintos (o 12/10, dia de N. Srª de Aparecida padroeira do Brasil d. 31, ainda hoje é feriado nacional).

Os cultos afrobrasileiros são criação coletivas dos negros aportados como escravos desde o século 16, que trazem consigo suas divindades, Orixás (dos Iorubás), Voduns (dos Jejes), Inquices (dos angolacongenses) . A sociedade escravista catequiza os escravos, em especial após a bula Immensa Pastorum (1741), do papa Bento XIV, afirmar que os negros também tem alma; de outro lado, permite em geral os batuques (práticas religiosas), visando manter acesas as divisões étnicas no meio da escravaria. . Processa-se ai o sincretismo de elementos religiosos de diversos povos africanos, com predomínio do culto ioruba (nagô), elementos de outras religiões da África negra e muçulmanos, mesclados ainda com a influência católica e indígena. Em meados do século 19, após forte afluxo de escravos Iorubás para a BA (quando o Daomé arrasa o reino Iorubá) surgem em Savador os candomblés (do quicongo Ka-n-domb-el-e, ação de orar). O 1º Ilê Axé Iya Nassô (ainda funciona no bairro do Engenho Velho) e muitos de seus contemporâneos nasce sob a cobertura de irmandades católicas. Já no século 20 surge no RJ a umbanda, hoje com mais fies no país que o candomblé, com marcada presença de elementos sincréticos, sobretudo do espiritismo kardecista.

Os cultos evangélicos (após ensaios dos séculos 16-17, que não tem seguimento) implantam-se no início do século 19 ligados a núcleos de colonos ou residentes europeus e norteamericanos. A evangelização de novos fiéis começa em 1855, sob o impulso de missões vindas dos EUA (difunde-se então a denominação crente, pejorativa, enquanto os fiéis dessas igrejas passam a denominar-se evangélicos e o termo protestante tem uso restrito). No entanto , até 1940 os evangélicos são basicamente herdeiros de confissões religiosas trazidas ao Brasil por seus avós europeus, sobretudo alemães; a metade deles se concentra em 3 Estados (RS, SC e ES) com forte influência de imigração alemã.



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Uma onda de conversões tem início em meados do século. As imigrações em geral e a metropolização em particular, somadas às incertezas da crise social e à crescente secularização da sociedade, abalam certezas, lealdades e hábitos espirituais cristalizados há anos.

O movimento pentecostal (surgido nos EUA em 1906 e introduzido no Brasil já em 1910) dá novo impulso ao proselitismo evangélico, conquista multidões de fiéis e no início dos anos 60 forma a maioria dos evangélicos no país. A partir daí o chamado pentecostalismo autônomo acelera ainda mais o ritmo das conversões. As novas igrejas proliferam, em geral, a partir de cisão de igrejas mais antigas; Um censo efetuado em 90-92 no Grande Rio conta só ai 85 denominações. O pentecostalismo autônomo valoriza as curas divinas e outros milagres, bem como o exorcismo de demônios; pratica uma religião mais tangível, que oferece perspectivas terrenas e imediatas, de prosperidade, ascensão, saúde, harmonia familiar. Desde o início faz amplo emprego do rádio e TV. Seus templos se multiplicam rapidamente, da periferia das grandes cidades às áreas de fronteira agrícola; na virada dos anos 80 já superam os católicos em número. Um eficiente sistema de estímulo de dízimo (contribuição financeira dos fiéis) sustenta a expansão. Os fiéis provém na maioria das camadas mais pobres; apresentam taxas superiores à média de desemprego, sub-emprego e analfabetismo.

A Igreja Universal do Reino de Deus, fundada em 77 no bairro da Abolição, periferia do Rio, pelo bispo Edir Macedo, é a denominação que cresce mais rápido. Em 90 compra por US$ 45 milhões a TV Record, centro de um pujante sistema de rádio e TV (45 emissoras em 95). Abre pelo país milhares de templos, simples, mas animados pela oratória dos pastores e pela atividade voluntária dos obreiros. Desde os anos 80 atua também fora do Brasil. O explosivo crescimento gera preocupações, em especial da Igreja Católica, que redobra às críticas às seitas, acusando-as de explorar a ingenuidade dos fiéis e extorquir-lhes dinheiro. Nos anos 90 a Universal é alvo de uma campanha de acusações que vão de irregularidades na compra da Record e incêndio criminoso a envolvimento com o narcotráfico. Os pregadores da Universal revidam com veementes denúncias da presença do demônio nas outras religiões, em especial as afrobrasileiras, o espiritismo e o catolicismo. Em um programa da Record na madrugada de 12/10/95, o bispo Sérgio Von Helder vibra tapas e pontapés em uma imagem de N. Sª de Aparecida, na tentativa de demonstrar que trata-se de um ídolo sem poderes sobrenaturais; a Rede Globo de TV retransmite as cenas em horário nobre, provocando um clima de guerra religiosa, com ataques de católicos revoltados contra templos da Universal.

O bispo Edir Macedo veio a público para condenar a atitude de Sérgio Von Helder, e disse: “... agiu como criança e cometeu atos inconsequentes e desastrosos...”

Cresce também a presença relativa do espiritismo kardecista, da umbanda e do candomblé (que conquista fiéis de todas as raças e origens étnicas, enquanto uma parte busca a reafricanização, depurando-se de sincretismos). Para muitos brasileiros, estes cultos valem como opção complementar, compatível com a fé católica. Aumenta igualmente o número dos que não tem nenhuma religião. O Brasil assume a feição de um país de religiosidade pluralista, sobretudo nas maiores cidades, enquanto o predomínio católico sofre menos defecções no interior. Pesquisa de 1994, junto a 21 mil eleitores de todo o país, aponta 79,3% de católicos no interior, contra 67,0 % nas capitais e regiões metropolitanas (65,2% em S. Paulo e 59,3% no Rio). Em contrastes, os cultos evangélicos, os kardecistas e sobretudo os afobrasileiros, assim como os sem religião, são mais numerosos nos grandes centros.

A Igreja Católica mantém às vésperas do século 21 uma hegemonia ainda ampla porém em declínio. Seu rebanho é formado majoritariamente por católicos não praticantes, que só esporadicamente participam dos ritos da fé. Isola-se também devido à intransigente condenação do divórcio, aborto e dos métodos anticoncepcionais, mesmo em face do avanço da AIDS. Em resposta à evasão de fiéis, surge o Movimento da Renovação Carismática se situa na extremidade oposta ao engajamento pastoral, social e político das Comunidades Eclesais de Base; privilegia a esfera do espiritual, da individualidade, da família, da moral e dos costumes.

 
Referência  (Integralmente extraído e com as correções ortográficas realizadas por mim)
 
Alzugaray, D., & Alzugaray, C. (Eds.). (2000). Istoé Brasil 500 anos: Atlas histórico. São Paulo: Nova Geração. (p. 293)