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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A CAIXA DE SKINNER ME LIBERTOU DA RELIGIÃO

Caixa de Skinner

Quem estuda ou estudou psicologia sabe que “Caixa de Skinner” é o nome de uma ferramenta para pesquisas em comportamento animal que, geralmente é utilizada nas aulas de graduação nos primeiro períodos, cuja finalidade é demonstrar o como um comportamento pode ser modelado: Isso quer dizer que, se aplicarmos as devidas recompensas ou punições, podemos manipular o comportamento (até certo ponto) da forma como queremos. Geralmente esta caixa, feita de um material acrílico transparente, é utilizada para fazer este tipo de exercício com ratos de laboratório: coloca-se um rato sem nenhum tipo de treinamento e, a cada vez que ele pressionar uma barra, ele é recompensado com uma gota de água. Desta forma o rato vai aprendendo que, suas ações são recompensadas se ele emitir determinado tipo de comportamento, mesmo não tendo a ideia de que existe uma pessoa do outro lado apertando um botão para isto.

A única coisa que esta pessoa quer é manipular o comportamento do rato, pela simples vontade de aprender a fazê-lo, ou para qualquer outra finalidade. Só que tal tipo de exercício não funciona somente com rato: pode ser feito com pombos, cães, outros animais, e também com o ser humano.

Todavia, a caixa de Skinner humana é um pouco maior e não é feita de materiais físicos (por mais que possa ser também), mas é composta por forças que também são extremamente capazes de modelar o comportamento humano: essa caixa de Skinner humana se chama “cultura”.

A cultura é um conjunto de produções simbólicas e afetivas que se expressa através de uma série de informações, tecendo redes de poder e significação que, por sua vez ditam a vida do ser humano: é por isso que falamos português e não chinês, afinal, nascendo no Brasil, o que aprendemos é o que nos foi determinado pela sociedade que aqui estava antes de nascermos. Todavia, a cultura, expressada pela sociedade, manifesta-se através de diferentes tipos de agências, que por sua vez são utilizadas para regularem as relações entre os homens, sendo as mais conhecidas a família, a escola, a igreja, o trabalho, etc.

Assim, tais agências não regulam somente os comportamentos mais “visíveis” do ser humano, mas também os invisíveis, moldando a maneira como os homens sentem, percebem, interpretam e se comportam no mundo. Por isso é comum que pessoas que nasçam em uma religião, não tendo muita condição de conhecer coisas além desta caixa de Skinner, permaneçam nela, assim como nos casos em que pessoas acreditam piamente que só serão felizes se casarem, tiverem filhos, ou que sua vida seria melhor se tivesse nascido na Finlândia. Enfim, as pessoas vivem e se comportam com base nestas determinações culturais.

Quando entrei na faculdade, dos 16 para os 17 anos, eu era uma pessoa muito religiosa, e saí da mesma sendo uma pessoa totalmente antirreligiosa (note que isso não significa ser uma pessoa atéia), por ter entendido que, grande parte das coisas que se falavam em uma agência religiosa era sem fundamento: isso foi a tipificação de Mateus 15:14, “cegos que queriam guiar outros cegos” (paráfrase). Porque falo isso? - Não, não estou cuspindo no prato em que comi, afinal conheci muita gente boa e legal (mas também conheci muita gente que não precisaria ter conhecido), e aprendi muito com elas, mas isso não me faz ter que concordar com todas as suas práticas, não é mesmo?! – Falo isto porque, quando uma pessoa se dispõe a ensinar outra, ela deve pelo menos saber do que está falando, e muitas vezes as pessoas não sabiam. Em nome de um livro que pouco conheciam, replicavam um “cristo” que lhes foi apresentado por fontes secundárias (poucos pessoas haviam lido seu livro sagrado inteiro pelo menos uma vez, sequer o estudaram), fazendo ensinamentos que eram cheios de tradicionalismos vãos, modismos baratos, teologias mancas, interpretações distorcidas e pensando que qualquer arrepio na nuca era uma “comunicação divina”.

Muitos me perguntam se sou “revoltado com a igreja”... Não! Sou revoltado com as empresas religiosas! Igreja é um conceito relacional revolucionário que surgiu na palestina do século I, com base na fraternidade dos homens, sem ritualismos, sem aprisionamentos e sem hipocrisias.

Um dos versículos mais comentados de todos os tempos é: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” João 8:32 , mas é um versículo não seguido pelos religiosos! Ora, quantas vezes eu tive que escutar de gente tola de que a “faculdade afastava as pessoas de Deus” ou de que “ciência e fé não combinam”... NÃO, NÃO e NÃO! Ciência afasta o homem das crendices e da religiosidade, nunca de Deus! Ciência afasta o homem da religião, nunca da fé!

Não existe nada no mundo, na ciência, na filosofia que seja conclusivo contra a existência de um Deus, mas existe muita coisa na ciência que mostre o quanto os rituais são mecanismos de modelagem do comportamento humano e que você não precisa de nenhum ritual para ser bom. Isso me fez compreender de verdade a noção do cristianismo: crer no Deus do amor, e o amor é invisível.

Porque estou escrevendo este texto: porque estou cansado de gente que fica com “quem te viu quem te vê”, “nossa como você tá mudado”, “você desviou por quê?” ou qualquer coisa do gênero. É lógico que eu mudei, vi o tanto de ensinamentos que me eram empurrados como se fossem coisas “sagradas”, mas que nada mais eram do que um pacote de condicionamentos culturais. É lógico que mudei, fiquei muito mais crítico às mentiras que pareciam verdades que me eram enfiadas garganta abaixo. Não descri de Deus em nenhum momento, minha fé nele nunca se abalou, mas não tenho paciência para rituais vazios feitos entre quatro paredes.


E por fim, mudei mesmo minha forma de pensar, não sou um poste que fica sempre no mesmo lugar. Não tenho compromisso com nenhuma posição que eu julgue estar errada. E tenho um recado para os que se diziam meus “irmãos na fé”, mas que nunca comeram sequer um “x-tudo” comigo, ou que me perguntaram como eu estava nestes quase 10 anos longe de sua empresa religiosa: Estudem sobre sua fé, busquem a verdade, e amem de verdade, não só de aparência, mas não pensem que quem não concorda com seu jeito de pensar é vil e desprezível, pois tanto esta pessoa quanto você tem 50% de chances de estarem certas, ou erradas.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Nem católico, nem evangélico: O cristianismo é o cristianismo



Estamos cansados de escutar da boca de religiosos, profissionais ou leigos, as frases de que a “verdadeira Igreja de Cristo é a católica” ou que a “igreja evangélica é a reforma do cristianismo primitivo, um reavivamento do amor inicial da fé cristã". Este texto visa combater estas teses, com bases teológicas, filosóficas, históricas e socioantropológicas, mostrando que o cristianismo não é e nunca foi pensado para ser uma religião.

Em primeiro lugar é bom estabelecer o significado da palavra “Igreja” que do grego “Eclésia” quer dizer “assembleia”, cuja ideia é a da reunião de todos aqueles que comungam de um mesmo ideal, e no caso do cristão, o conceito de igreja se associa não a uma entidade física ou institucional, mas a um ente relacional composto por um corpo de princípios filosóficos e espirituais. Como assim? Simples, Jesus (enquanto personagem histórico) nunca se fixou em um lugar, estabeleceu liturgias, ou institucionalizou os seus ensinamentos. Um exemplo disso, em seus ensinamentos, ocorreu quando o grupo dos Fariseus estava preocupado em encontrar o “reino de Deus” em algum lugar concreto:

“E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” Lucas 17:20,21

O que acontece é que o conceito de reino de Deus está no terreno do “ENTRE”, ou seja, é relacional, demonstrando claramente que o conceito de igreja nasceu para ser relacional e não institucional. O problema é que, com o passar dos séculos, as comunidades foram se embrenhando no poder político dos reinos e impérios que se seguiam, e passaram a perverter o conceito de igreja, tirando-o do “ethos coletivo” para o do “institutio”, trocando as relações de amor, por relações de poder. Neste sentido, as instituições religiosas cristãs passaram a ser fiscais da fé de seu próprio grupo e da fé alheia, transformando-se em um objeto pervertido e assombroso com dois milênios de vida. Muitas delas, inclusive, passaram a se parecer mais com “imobiliárias da salvação” do que com qualquer instituição que prezasse com mudanças sociais efetivas no modo de ser/pensar perverso do mundo.

Digo isto com muita clareza ao afirmar que a Igreja Católica é uma invenção romana do século IV d.C., que começa a surgir a partir do Concílio de Nicéia, em 325 d.C., por ordem o Imperador Constantino que em decreto cessou a perseguição aos cristãos. Mas o golpe mais duro viria em 380 d.C., quando o imperador bizantino Teodósio I, declarou que o cristianismo era a religião oficial do Império e que todos os povos deveriam se converter a ela, ou seriam perseguidos pelo mesmo. Isso foi um trágico golpe ao cristianismo primitivo que, em suas origens mais puras, nasce em CONTEXTO JUDAICO, e não romano, no sentido de que, deixando de ter uma fé desintitucionalizada, passaram a ter seus costumes brutalmente sintetizados com a mitologia Greco-romana: os templos que eram usados pelo paganismo, passaram a ser locais de veneração cristã; o dia de descanso passou de sábado (costume judaico) para domingo, em atenção ao costume do “dia do Sol” (o deus Mitra, dos romanos, era considerado o deus-sol, e os seu dia sagrado era o domingo – “Sunday”); assim como o Natal passou a ser celebrado em 25 de Dezembro, pois esta era a data do nascimento de Mitra; as estátuas de Hera, Afrodite e Atenas, foram facilmente transformadas nas imagens das “virgens” ou “santas” (Maria, Madalena, Ana, etc), assim como as dos deuses Zeus, Apolo, Hermes, Poseidon, foram facilmente sincretizadas com os “santos católicos”; e assim se seguiram vários outros exemplos, muitos dos quais perduram até hoje, como a de alguns os rituais, vestimentas, instrumentos da missa e etc.

E foi-se deteriorando o cristianismo até que, insuportavelmente, de forma política, econômica e social, irromper no movimento da Reforma Protestante, no século XVI. Muitos pensam, neste sentido que, a reforma foi uma rebelião conduzida por Martinho Lutero (1483-1546), mas uma análise mais ampla nos mostra que a reforma protestante foi um movimento descentralizado que ocorreu durante mais de um século: Jerônimo Savonarola (1452-1498) foi um padre domiciano da cidade de Florença que conduziu um movimento focal de reforma cristã até o ponto de ser assassinado pela autoridades locais a contento do papa Alexandre VI (1431-1503), antes mesmo de Lutero surgir na cena histórica; Ulrico Zwinglio (1448-1531) também foi um reformador que atuou na suíça que com êxito conseguiu organizar um movimento religioso em seu país. Também houve, dois séculos antes, como precursores da reforma, John Wycliffe (1328-1384), na Inglaterra e; John Huss (1369-1415).

Enganam-se também aqueles que tentam “espiritualizar” tudo, vendo a Reforma Protestante como um movimento de “ovelhinhas santas” que tentavam se desvencilhar dos seus tosadores: também existiam muitos interesses políticos, econômicos e sociais na questão, e isso é simples de se perceber ao ver que o Príncipe Frederico da Saxônia (1463-1525), grande protetor de Lutero, estava muito interessado em, juntamente com seus nobres, subverter o poder e os bens da Igreja Católica para seu reino, assim como o Rei Henrique VIII (1491-1547) que possuía interesses claramente católicos, rompeu com o papa e sua igreja porque não lhe foi dada a autorização para se divorciar e casar-se com outra mulher, criando assim sua própria Igreja Nacional, a Anglicana (na Inglaterra).

Logo, foram vários os motivos que levaram à reforma protestante, e um foi se valendo do outro até chegar ao ponto em que através de várias rebeliões, oficialmente cindiu-se a igreja, criando uma nova tradição ou ideologia cristã.

Em se tratando de movimento político, social, econômico e cultural, a reforma protestante representou um salto e um grande avanço na história mundial, na medida em que colabora para a superação da Idade Média e da dominação católica, ainda que sob duras penas e de algumas formas seriamente questionáveis.

Mas o que acontece é que a reforma protestante não apresentou-se como um movimento homogêneo e unívoco, na medida em que, um de seus pilares políticos e sociais, era o da afirmação da liberdade humana: liberdade de culto, liberdade de consciência, e liberdade de exame às escrituras. Todavia, tal princípio não durou por muito tempo, pois em algumas regiões na medida em que ia se conquistando a hegemonia sob a coletividade, passaram a reproduzir de diferentes maneiras os mesmos modus operandi do catolicismo. E a partir daí travaram-se vários confrontos e guerras, tudo em nome da fé – e por sinal, até hoje vemos reflexo disso em nossa cultura ao ver a hostilidade entre determinados grupos de católicos e de evangélicos.

Mesmo não sendo um movimento “puro”, teologicamente falando, a reforma protestante apresentou consideráveis avanços na tentativa de um retorno a um projeto de espiritualidade primitiva, estes que culminaram alguns séculos depois na doutrina das 5 solas (dá uma pesquisadinha no Google a respeito... =), é um tema bacana), mas que falharam, sob meu ponto de vista, na medida em que, buscando livrar-se da dominação da igreja católica e por um ideal de fé livre, condicionaram tal fé à uma outra estrutura eclesiástica, copiada de sua mãe litigiosa (a Igreja Católica). Neste sentido, um dos grandes problemas é que, lutando pela liberdade de crença, condicionaram o pensamento e a fé cristã a uma instituição.

Isso é simples ao observarmos o hermetismo (essa capacidade que as igrejas têm de se fecharem em si mesmas e não dialogarem com o mundo, não aceitarem críticas, não se envolverem mais ativamente com o social, não estudarem outras teorias a não ser as suas caseiras) que a maioria das instituições pós-protestantes (uso este termo para não falar evangélicas, pois ainda chegaremos lá) possuem.

E assim foi a reforma protestante, desde o ano de 1517, em que se estabeleceu oficialmente enquanto “Igreja” (ou movimento espiritual, de pensamento filosófico), com o afixamento das 95 teses de Lutero na catedral de Wittenberg (Alemanha), até o ano de 1906, nos Estados Unidos, onde começa a Igreja Evangélica, no famoso “Avivamento da Rua Azusa”: Aqui se marca uma quebra fundamental no paradigma do pensamento protestante, onde se dividem protestantes (Igrejas Tradicionais) de Evangélicos (Igrejas Pentecostais). Todavia, com o passar dos anos e com a crescente multiplicação desta segunda via (o movimento pentecostal é conhecido como a segunda via do pensamento protestante), e com a conversão de igrejas tradicionais em pentecostais, a igreja passou a cada vez mais se nomear como “evangélica”. E o mais interessante é que o Brasil também possui um papel importante nesta história, ao passo que a maior igreja pentecostal do mundo é a Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Brasil, de onde surgiram grande parte das dissidências que fundariam a terceira onda do movimento protestante, a partir da década de 70, com as Igrejas Neopentecostais, que seriam exportadas para o mundo (Igreja Universal do Reino de Deus é um exemplo).

As igrejas neopentecostais foram as responsáveis por trazer outro nível de organização do sistema religioso protestante à sociedade, na medida em que, seu apelo subiu de nível socioeconômico e cultural: o “esgotamento” natural das camadas sociais mais baixas onde as igrejas pentecostais pregavam (onde as igrejas pentecostais tinham um forte apelo por sua teologia “exorcista” e “curandeira”, mostrando o ideal imediatista de solução de problemas sociais) foi dando lugar a um projeto de classe média que ia emergindo no final da ditadura militar e reabertura da democracia, onde as igrejas neopentecostais, com seus discursos mais leves em relação aos usos e costumes (mulheres poderem usar calças, maquiagens, ser permitido aos fiéis assistir televisão, jogar futebol, etc.) e com forte apelo a Teologia da Prosperidade (afinal de contas, a classe média que começava a esboçar-se precisava de um discurso para si). E assim surgem as igrejas com fortes discursos expansionistas, capitalistas, triunfalistas, imperialistas, com forte apelo no marketing, na psicologia da confissão positiva, em uso de técnicas de hipnose (ainda que de maneira inconsciente, ou não), cada vez mais centradas no culto ao “ego” e com uma estrutura administrativa cada vez melhor estabelecida através de “Redes”, “Células”, “Modelos”, etc, passando a importar cada vez mais as músicas, costumes e hábitos de outros países (Colômbia, Coréia do Sul, Austrália e principalmente dos Estados Unidos), criando uma classe de consumidores de religiosidade.

Todavia, estas igrejas preservaram alguns aspectos interessantes do movimento pentecostal, colocando-se cada vez mais em oposição às igrejas protestantes históricas, no sentido de que tornaram-se cada vez mais herméticas, e combatentes à qualquer tipo de crítica externa: afinal de contas, qualquer tipo de pensamento que parecesse difícil ou impossível de ser rebatido pela comunidade religiosa, rapidamente era taxado de herético ou rebelde em uma espécie de mini-inquisição do pensamento no século XXI. Todavia, este parece ter sido, em conjunto com série de escândalos e com uma teologia mais fraca do que gelatina sem sabor, um dos grandes motivos para uma série de debandada em massa de fiéis, principalmente jovens, a partir dos anos 2000; estes que passaram rapidamente a ser taxados de ovelhas rebeldes, vendidos, “desviados” ou “fracos na fé”.

E todo este processo se dando em claros “loopings” da Igreja Católica na tentativa de arrebanhar fiéis em todo este processo: o movimento da Renovação Carismática Católica, pareceu surtir certo efeito no Brasil, na medida em que, pentecostalizou a igreja católica e deu uma aparência levemente mais “underground” para sua liturgia. Outro movimento interessante foi o surgimento de um papa latino-americano que tem causado profunda comoção na mídia através de posturas que se apresentam como pequenas revoluções dentro da estrutura católica.

Enfim, depois de ter feito todo este panorama, vou ressaltar alguns pontos: a fé cristã é centrada na pessoa do Cristo, que não estabeleceu dogmas, liturgias, nem maneiras de culto, mas, cujos ensinamentos foram expressos através de parábolas que exemplificavam PRINCÍPIOS que são anteriores, maiores e mais profundos do que qualquer tipo de lei. E toda sua obra é resumida em dois princípios Bíblicos:

“E um deles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar, dizendo: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” Mateus 22:35-40

Ora, é tão claro e simples como a água: Jesus resumiu toda a lei, sendo ela civil, penal, espiritual ou qualquer escambau, em dois simples versos – amar ao próximo e amar a Deus, que em última instância é “amar ao próximo”:

“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” 1 João 4:20

O problema de muitos católicos, evangélicos e ortodoxos (e aqui eu faço uma crítica a todos os sistemas institucionalizados de fé cristã) é o de, às vezes, encarar a Bíblia como um livro de contos de fadas, ou uma espécie de manual ou gibi espiritual, e não como um livro histórico, literário e filosófico, repleto de princípios que estão gritando para serem explorados através de ferramentas hermenêuticas.

Muitos teólogos, profissionais ou amadores, advogam a fala que “a Bíblia deve ser interpretada em um contexto”, mas olham somente para o contexto interno (no sentido da coesão literária, etc), mas esquecem-se de olhar para a mesma para os contextos culturais, históricos, sociais, econômicos, linguísticos, educacionais, que haviam na época, que eram muito diferentes dos nossos e que, consequentemente deram espaço para diferentes compreensões dos princípios existentes por trás do texto bíblico. Digo o texto bíblico por entedê-lo como um rico arcabouço de princípios para a fé e filosofia cristã.

O problema é que a institucionalização milenar do cristianismo, com todas as interpolações do paganismo, do romanismo, da política, das guerras, das diversas culturas, condicionaram a interpretação atual de grande parcela dos “pensadores” caseiros das igrejas. Some isto ao já criticado hermetismo das instituições e você terá um modelo escabroso, esquizofrênico e cruel de uma falsa espiritualidade travestida de fé: como em pleno século XXI uma igreja fala contra métodos contraceptivos? Como em pleno século XXI uma igreja fala contra divórcio? Como em pleno século XXI uma igreja permite que pastores boçais utilizem-se de espaços nas mídias para oprimir grupos homossexuais, de outras crenças religiosas ou políticas e etc? Ao ler estas perguntas, um leitor “condicionado” pelo pensamento religioso institucionalizado iria pensar “heresia”, mas não sabe explicar o significado cultural, histórico, antropológico e sociológico do divórcio, e qual o princípio cristão que havia por trás da proibição (não recomendação) do mesmo no século I.

Dou uma simples dica: uma mulher divorciada (que na verdade, era repudiada), em uma sociedade extremamente machista, onde era vista como um “ser inferior”, um objeto de posso do homem, teria somente duas opções – a mendicância ou a prostituição, caso contrário, morreria de fome, pois não era aceita pelos pais novamente em casa. Oras, não havia INSS, segurança social, pensão, comunhão de bens, mercado de trabalho feminino no século I, e o princípio cristão por trás da não recomendação do divórcio era o de elevar às mulheres a uma condição de igualdade para com os homens e, para que as mesmas fossem tratadas com o mesmo respeito que o mesmo. Todavia, mesmo o apóstolo Paulo, escreveu textos machistas (de que a mulher deveria ficar calada na “Congregação”, confere em I Coríntios 14:34-35) na Bíblia, mas não por “maldade”, mas porque a estrutura de pensamento social da época era assim. Oras, se queremos advogar um cristianismo inteligente que considera os contextos para não ter pretextos, devemos levar em conta as questões históricas, culturais, sociológicas, antropológicas e psicológicas da teologia.

“Ah, mas esse negócio de cultura é uma conversa para flexibilizar a fé em prol de interesses particulares”... então me responda porque o seu deus (com “D” minúsculo, porque não pode ser um Deus Bom), permite a escravidão?

“Vós, escravos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus.” Colossenses 3:22

O fato é que existem inúmeros outros textos que não podem ser respondidos por uma fé institucionalizada, justamente por ter um pensamento estreito que não dá conta de levar em consideração outros pontos de vista que não sejam aqueles cravados no ego ou no etnocentrismo.
Mas depois de todo este texto longo, o que eu quero dizer, em suma é: o cristianismo que conhecemos hoje, nada mais é do que um monte de cópias, interpelações, violências históricas, teóricas, filosóficas e misturas que nos foram impostas pelo decorrer dos milênios através de tradições institucionalizadas que tentaram sob todas as formas e forças dogmatizar o pensamento e dizer o que “pode e o que não pode”. Oras, a lei sob o qual estávamos, enquanto cristãos, caiu para que entrássemos na era da graça:

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.” Romanos 6:14

E quando eu falo graça, eu falo “GRAÇA”, não permissividade, pois a graça está sob nossas consciências em Cristo, cujo limite é o amor ao próximo e a Deus. De resto, busquemos todas as coisas sob as quais não há lei, pois é sobre elas que se resume o cristianismo:

“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei.” Gálatas 5:22-23

Sendo que são estas coisas que resumem a busca do homem na terra, enquanto caráter, e mostram por oposição, tudo aquilo que o ser humano tem que renunciar... fora de qualquer institucionalidade, dogma, cabresto, prédio, ou sistema condicionador.

Cristianismo não é religião, é modo de viver, e um modo de ser baseado na verdade, sob a qual repousa a total liberdade do homem:

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8:32
.....
Em Jesus de Nazaré, que nos libertou da ignorância,

Murillo Rodrigues dos Santos

Psicólogo, mestrando em psicologia, pesquisador em psicologia da religião.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Doze conselhos para aqueles que desejam ser líderes na Casa de Deus - De Watchman Nee

Watchman Nee (1903 - 1972)

1. Aprendam a amar os outros, a pensar no bem deles, a ter cuidado por eles, a negar-se a si próprios por causa deles e a dar a eles tudo o que têm. Se alguém não consegue negar-se a si próprio em beneficio dos outros, ser-lhe-á impossível conduzir alguém no caminho espiritual. Aprendam a dar aos outros o que você tem, ainda que se sinta como se nada tivesse. Então o Senhor começará a derramar-lhe a Sua bênção.

2. A força interior de um líder deveria equivaler à sua força exterior. Esforços em demasia, avanços desnecessários, inquietações, apertos, tensões, falta no transbordar, planos humanos e avanços na frente do Senhor, são todas as coisas que não devem ocorrer. Se alguém está cheio de abundância em seu interior, tudo o que emana dele é como o fluir de correntes de águas, e não existem esforços demasiados de sua parte. É preciso ser de fato um homem espiritual, e não simplesmente se comportar como um.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Entrevista com o Pastor Ricardo Gondim - "O pastor hérege"

Texto de Gerson Freitas Jr. publicado originalmente na Carta Capital

‘Deus nos livre de um Brasil evangélico?’ Quem afirma é um pastor, o cearense Ricardo Gondim. Segundo ele, o movimento neopentecostal se expande com um projeto de poder e imposição de valores, mas em seu crescimento estão as raízes da própria decadência. Os evangélicos, diz Gondim, absorvem cada vez mais elementos do perfil religioso típico dos brasileiros, embora tendam a recrudescer em questões como o aborto e os direitos homossexuais. Aos 57 anos, pastor há 34, Gondim é líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista. E tornou-se um dos mais populares críticos do mainstream evangélico, o que o transformou em alvo. “Sou o herege da vez”, diz na entrevista a seguir.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Citação: Perdendo Filhos - Nancy Pearcey

Nancy Pearcey
""Perdemos a cultura" e continuamos perdendo nossos filhos. A história trágica e repetitiva é que os jovens crentes, criados em lares cristãos, vão para a faculdade e abandonam a fé. Porque este padrão é tão comum? Em grande parte, porque eles não foram ensinados a desenvolver uma cosmovisão bíblica. Em vez disso, o cristianismo é restrito a uma arca especializada de crença religiosa e devoção pessoal.

Recentemente li um exemplo notável. Em uma certa escola secundária cristã americana, um professor de teologia colocou-se à frente da sala de aula e, de uma lado do quadro-negro, desenhou um coração, e do outro, um cérebro. Os dois desenhos ocupavam partes iguais do quadro. Virando-se para a classe disse: O coração é o que usamos para a religião, ao passo que fazemos uso do cérebro para a ciência.

Uma história apócrifa? Uma caricatura de anti-intelectualismo cristão? Não, a história foi narrada por uma jovem que naquele dia estava na sala.

Pior, entre uns duzentos alunos, e ela foi a única que contestou. Pelo visto, os demais não acharam nada incomum restringir a religião ao domínio do "coração".

Na função de pais, pastores, professores e líderes cristãos de grupos de mocidade, vemos constantemente os jovens humilhados pela contracorrente de tendências culturais poderosas. Se tudo o que lhes dermos for uma religião do "coração", não serão bastantes fortes para se oporem à isca de ideias atraentes e perigosas. Os jovens crentes também precisam de uma religião do "cérebro" - educação em cosmovisão e apologética - para equipá-los na análise crítica de cosmovisões concorrentes que eles encontrarão no mundo a fora. Se estiverem prevenidos e armados, os jovens pelo menos terão a chance de lutar quando forem a minoria entre os companheiros de classe ou colegas de trabalho. Educar os jovens a desenvolver uma mente cristã já não é opção; é parte indispensável do equipamento de sobrevivência."


Nancy Pearcey. Verdade Absoluta. Pp. 14-15.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Religiões no Brasil - Atlas Histórico Istoé

RElLIGIÕES / IGREJAS
O maior país católico do mundo é também, durante séculos, exclusiva e compulsóriamente fiel à Igreja de Roma. Só com o tratado de 1810, e contrariando o núncio apostólico, a coroa abre exceção para o culto anglicano, professado por comerciantes e diplomatas ingleses, ainda assim com restrições (os lugares de culto não podem ter aparência de templo, nem sinos). A constituição de 1824 estende a permissão a outros cultos cristãos, devido a chegada das 1as levas de imigrantes de confissão luterana. Porém o catolicismo permanece a religião do Estado e dispõe de regalia que resguardam um virtual monopólio (até 1881 apenas católicos tem, por exemplo, direito de voto). Seu concorrente espiritual na época é a maçonaria, com penetração restrita às elites, mas protagonista da Questão Religiosa de 1872-1875, 1º abalo no domínio católico. A república de 1889, sob influência positivista separa Igreja e Estado, estabelece o ensino laico, o casamento e o registro civis obrigatórios; mas o catolicismo logo recupera foros de igreja ociosa, reforçados nos anos 30 com o atendimento das reivindicações católicas e ainda hoje não de todo extintos (o 12/10, dia de N. Srª de Aparecida padroeira do Brasil d. 31, ainda hoje é feriado nacional).

Os cultos afrobrasileiros são criação coletivas dos negros aportados como escravos desde o século 16, que trazem consigo suas divindades, Orixás (dos Iorubás), Voduns (dos Jejes), Inquices (dos angolacongenses) . A sociedade escravista catequiza os escravos, em especial após a bula Immensa Pastorum (1741), do papa Bento XIV, afirmar que os negros também tem alma; de outro lado, permite em geral os batuques (práticas religiosas), visando manter acesas as divisões étnicas no meio da escravaria. . Processa-se ai o sincretismo de elementos religiosos de diversos povos africanos, com predomínio do culto ioruba (nagô), elementos de outras religiões da África negra e muçulmanos, mesclados ainda com a influência católica e indígena. Em meados do século 19, após forte afluxo de escravos Iorubás para a BA (quando o Daomé arrasa o reino Iorubá) surgem em Savador os candomblés (do quicongo Ka-n-domb-el-e, ação de orar). O 1º Ilê Axé Iya Nassô (ainda funciona no bairro do Engenho Velho) e muitos de seus contemporâneos nasce sob a cobertura de irmandades católicas. Já no século 20 surge no RJ a umbanda, hoje com mais fies no país que o candomblé, com marcada presença de elementos sincréticos, sobretudo do espiritismo kardecista.

Os cultos evangélicos (após ensaios dos séculos 16-17, que não tem seguimento) implantam-se no início do século 19 ligados a núcleos de colonos ou residentes europeus e norteamericanos. A evangelização de novos fiéis começa em 1855, sob o impulso de missões vindas dos EUA (difunde-se então a denominação crente, pejorativa, enquanto os fiéis dessas igrejas passam a denominar-se evangélicos e o termo protestante tem uso restrito). No entanto , até 1940 os evangélicos são basicamente herdeiros de confissões religiosas trazidas ao Brasil por seus avós europeus, sobretudo alemães; a metade deles se concentra em 3 Estados (RS, SC e ES) com forte influência de imigração alemã.



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Uma onda de conversões tem início em meados do século. As imigrações em geral e a metropolização em particular, somadas às incertezas da crise social e à crescente secularização da sociedade, abalam certezas, lealdades e hábitos espirituais cristalizados há anos.

O movimento pentecostal (surgido nos EUA em 1906 e introduzido no Brasil já em 1910) dá novo impulso ao proselitismo evangélico, conquista multidões de fiéis e no início dos anos 60 forma a maioria dos evangélicos no país. A partir daí o chamado pentecostalismo autônomo acelera ainda mais o ritmo das conversões. As novas igrejas proliferam, em geral, a partir de cisão de igrejas mais antigas; Um censo efetuado em 90-92 no Grande Rio conta só ai 85 denominações. O pentecostalismo autônomo valoriza as curas divinas e outros milagres, bem como o exorcismo de demônios; pratica uma religião mais tangível, que oferece perspectivas terrenas e imediatas, de prosperidade, ascensão, saúde, harmonia familiar. Desde o início faz amplo emprego do rádio e TV. Seus templos se multiplicam rapidamente, da periferia das grandes cidades às áreas de fronteira agrícola; na virada dos anos 80 já superam os católicos em número. Um eficiente sistema de estímulo de dízimo (contribuição financeira dos fiéis) sustenta a expansão. Os fiéis provém na maioria das camadas mais pobres; apresentam taxas superiores à média de desemprego, sub-emprego e analfabetismo.

A Igreja Universal do Reino de Deus, fundada em 77 no bairro da Abolição, periferia do Rio, pelo bispo Edir Macedo, é a denominação que cresce mais rápido. Em 90 compra por US$ 45 milhões a TV Record, centro de um pujante sistema de rádio e TV (45 emissoras em 95). Abre pelo país milhares de templos, simples, mas animados pela oratória dos pastores e pela atividade voluntária dos obreiros. Desde os anos 80 atua também fora do Brasil. O explosivo crescimento gera preocupações, em especial da Igreja Católica, que redobra às críticas às seitas, acusando-as de explorar a ingenuidade dos fiéis e extorquir-lhes dinheiro. Nos anos 90 a Universal é alvo de uma campanha de acusações que vão de irregularidades na compra da Record e incêndio criminoso a envolvimento com o narcotráfico. Os pregadores da Universal revidam com veementes denúncias da presença do demônio nas outras religiões, em especial as afrobrasileiras, o espiritismo e o catolicismo. Em um programa da Record na madrugada de 12/10/95, o bispo Sérgio Von Helder vibra tapas e pontapés em uma imagem de N. Sª de Aparecida, na tentativa de demonstrar que trata-se de um ídolo sem poderes sobrenaturais; a Rede Globo de TV retransmite as cenas em horário nobre, provocando um clima de guerra religiosa, com ataques de católicos revoltados contra templos da Universal.

O bispo Edir Macedo veio a público para condenar a atitude de Sérgio Von Helder, e disse: “... agiu como criança e cometeu atos inconsequentes e desastrosos...”

Cresce também a presença relativa do espiritismo kardecista, da umbanda e do candomblé (que conquista fiéis de todas as raças e origens étnicas, enquanto uma parte busca a reafricanização, depurando-se de sincretismos). Para muitos brasileiros, estes cultos valem como opção complementar, compatível com a fé católica. Aumenta igualmente o número dos que não tem nenhuma religião. O Brasil assume a feição de um país de religiosidade pluralista, sobretudo nas maiores cidades, enquanto o predomínio católico sofre menos defecções no interior. Pesquisa de 1994, junto a 21 mil eleitores de todo o país, aponta 79,3% de católicos no interior, contra 67,0 % nas capitais e regiões metropolitanas (65,2% em S. Paulo e 59,3% no Rio). Em contrastes, os cultos evangélicos, os kardecistas e sobretudo os afobrasileiros, assim como os sem religião, são mais numerosos nos grandes centros.

A Igreja Católica mantém às vésperas do século 21 uma hegemonia ainda ampla porém em declínio. Seu rebanho é formado majoritariamente por católicos não praticantes, que só esporadicamente participam dos ritos da fé. Isola-se também devido à intransigente condenação do divórcio, aborto e dos métodos anticoncepcionais, mesmo em face do avanço da AIDS. Em resposta à evasão de fiéis, surge o Movimento da Renovação Carismática se situa na extremidade oposta ao engajamento pastoral, social e político das Comunidades Eclesais de Base; privilegia a esfera do espiritual, da individualidade, da família, da moral e dos costumes.

 
Referência  (Integralmente extraído e com as correções ortográficas realizadas por mim)
 
Alzugaray, D., & Alzugaray, C. (Eds.). (2000). Istoé Brasil 500 anos: Atlas histórico. São Paulo: Nova Geração. (p. 293)